Então lá estava eu novamente em Campinas no templo com os irmãos e irmãs Polimatas, com o coração e a mente abertos para vivenciar mais uma experiência reveladora a qual iria, uma vez mais, me conduzir através dos cantinhos mais ocultos de minha existência enfatizando toda a beleza pela qual vale a pena lutar, mas também toda a escuridão à qual a luz se faz necessária.

O ritual seria em consagração à Sri Saraswathi que, segundo as tradições e escrituras védicas, se trata da Deusa da Harmonia, das Artes e da Sabedoria.
Como de costume, durante a preleção que se dá momentos antes do início do ritual, nos foi explicado um pouco sobre o significado da Deusa, a qualidade de energias regidas por ela e qual a melhor maneira de nos beneficiarmos do ritual perante sua presença.
Aprendemos que, por se tratar de uma Deidade que rege a criatividade e também a harmonia, seus ensinamentos embora possam ser maravilhosos, muitas vezes se manifestam de maneira um tanto sutil e seu método se dá através da retórica de forma que o melhor seria que deixássemos de lado quaisquer expectativas e ansiedades e que nos entregássemos à seus ensinamentos sem julgamentos, apenas permitindo que o fluxo seguisse deixando a sua seiva se depositar em nosso ser.
Este não seria um ritual de busca, perguntas e exploração do astral, mas de prestarmos atenção ao que a Mãe, amorosa que é, tem para nos ensinar e com amor recíproco o recebermos.
Ainda, similar ao ritual de consagração à Shiva ocorrido meses antes, teríamos algumas sessões de recitação de mantras em Sânscrito os quais propiciariam as condições ideais à presença da Deusa bem como ao envolvimento de todos em sua egrégora de luz.
Ao término da preleção os trabalhos ritualísticos foram formalmente iniciados e a primeira dose da medicina sagrada da Ayahuasca nos foi servida para que pudéssemos nos liberar dos grilhões da mente e assim nos conectarmos à gira de seres e energias que alí passariam então à circular.
Os músicos iniciaram a entoação de cânticos maravilhosos que através de suas vibrações harmoniosas iam nos envolvendo ao mesmo tempo em que teciam ou revelavam caminhos de acesso à mundos encantadores e cheios de significados que somente podiam ser compreendidos naquele momento em que eram vivenciados, a razão e o tempo não tinham poder algum nestes reinos e quando neles tentavam participar, tudo o que faziam era destruí-los por completo.
Já o coração alí se fazia Rei, absoluto, bebendo do momento presente e sentindo sua força crescer à cada nova imagem, som ou sensação que eram recebidas e traduzidas em vibrações ressoando nas suas paredes e passando à incorporarem-se à sua essência.
Por estes universos vaguei por momentos que embora iam se dissipando e transformando à todo instante, eram infinitos em sua verdade.
E quando já me considerava totalmente abençoado pelo fato de poder experimentar um pouco destes reinos, estando agora como que dentro de um túnel com paredes etéricas que seguiam seu fluxo de constante transformação, a Deusa me presenteou ao mostrar seu rosto lindo e iluminado com olhos penetrantes e benevolentes enquanto que me dizia algo que embora tenha jurado à mim mesmo naquele momento que iria guardar cada palavra dita para nunca mais esquecê-las, hoje apenas consigo me recordar do som de sua voz e do sentimento que ela me induziu fazendo-me saber que tudo ficaria bem e que eu estaria sendo acolhido por acreditar em sua força e seguir meu caminho na busca de quem realmente sou.
Entendo que o poder daquele momento me proporcionou a força e confiança para dar mais um passinho em direção ao encontro do guerreiro que eu agora sabia que deveria se erigir para que eu pudesse adentrar novamente um pouco mais fundo as câmaras ainda sombrias de meu íntimo.
Ao passo que determinam o fluxo de nossas experiências na força da medicina, o ritual e os cânticos parecem ser regidos por uma inteligência superior a qual tem o poder de perceber o momento sendo experimentado no íntimo de cada um dos participantes para então se transformar à fim de proporcionar uma egrégora agora totalmente diferente da que havia sido determinada até então para dar força à um novo momento, e este passou à ser o momento em que o guerreiro seria incitado à se revelar.
Aqui acredito que vale uma nota para evitar enganos de quem estiver, porventura, lendo este texto.
Colocando da maneira que venho relatando faz parecer que bastaria então estar envolto pelo poder da medicina sagrada e se deixar levar pela força da egrégora que estaríamos então resolvidos, não é mesmo ?
Mas é importante deixar destacado que embora pareça, não é bem assim como tudo acontece.
De fato, cada detalhe colabora para potencializar este momento, a medicina, os cânticos, a egrégora, a vivência, a presença da Deusa e revelações até então vão nos dando todas as ferramentas e energia necessárias para darmos os passos necessários em direção ao nosso destino, mas se esta vontade não brotar da força interna depositada no centro de nosso coração, todo o resto terá sido em vão.
E vale também lembrar que esta resolução muitas vezes requer bastante energia e coragem para sairmos do nosso lugar de conforto e nos lançarmos nas névoas do desconhecido sendo isto um ato de assumir a responsabilidade com relação à nossa busca e às consequências que dela brotarem, sejam estas quais forem.
Dito isto, voltemos nossa atenção novamente à experiência vivida durante o ritual.
Neste momento, me sentindo renovado, confiante e corajoso, não somente dei passagem para que o guerreiro se revelasse em mim como o invoquei, dancei à ele e à Deusa em consagração e gratidão.

Ao me olhar, como me encontrava agora à imagem nítida de um guerreiro com a pele azulada, cabeça de cavalo em corpo de homem e portador de uma força e vigor descomunais, tive a certeza de haver chegado o momento de mergulhar e então mergulhei.
Desci sem medo às câmaras ainda enegrecidas de meu coração onde sabia habitar alguém ou talvez alguma parte de mim há muito esquecida e magoada e que deveria agora ser trazida à luz.
Chamei e desafiei à que se revelasse até que sentisse a sua presença nauseante, densa e fétida habitando o mesmo corpo em que nos encontrávamos eu e o guerreiro que me acompanhava.
E então veio a peia causando alguma limpeza através de uma sequência de vômitos.
E durante a peia eu pude vê-lo como também pude ouví-lo balbuciando através de minha própria boca com sua voz grave e horrenda dizendo que não queria e não iria me deixar.
Muita energia foi empregada nesta manobra e acredito que faltou muito pouco para conseguir me desvencilhar de seja lá o que for que eu havia trazido de dentro, mas embora tão próximo de conseguí-lo, o esforço empregado acabou por não ser suficiente pois ao mínimo recuo para tentar recolher mais energia a oportunidade se desfez e perdi o contato com a entidade.
Sei que talvez eu devesse me sentir frustrado por haver chegado tão perto de presentear o meu espírito com uma vitória e torná-lo mais leve e desprendido do peso do carma, mas por outro lado eu cheguei ao templo naquele dia sem nem nenhuma certeza quanto da existência deste ser e muito menos o que fazer para me desprender dele e hoje sei que tenho a Deusa ao meu lado bem como a energia de um guerreiro e sei também que o que prende esta coisa à mim são meus próprios pensamentos e comportamentos no mundo.
Agora sei o que tenho de fazer, e embora pareça lugar comum o que vou dizer, esta experiência disparou um processo de transformação interior, agora não mais por medo do carma ou porque uma ou outra doutrina me contou que seria melhor fazê-lo, mas porque nesta noite pude ver os dois lados da existência humana, a bipolaridade de nossa consciência ou como queira à isto chamar, ví toda a beleza pela qual vale a pena lutar, mas também toda a escuridão que habita em mim e à qual a luz deve chegar.
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