
Após oito meses praticamente ignorando, ou mesmo fugindo daquele suspiro sutil, já tão conhecido por alguns, o qual de tempos em tempos vem brotar de algum cantinho lá de dentro do ser e, que faz emergir em nosso íntimo formas-pensamento perigosamente envolventes, que, ao mesmo tempo em que nos brindam com esta sensação inebriante de saudosa nostalgia por uma vida pulsante e completa em si mesma, embora longínqua e quase esquecida no tempo, trazem também a sede avassaladora e o desejo por uma nova aventura no mundo encantado de nossas realidades ocultas.
Sabemos que surgirão novamente cicatrizes a serem expostas e traumas a serem chorados, tirados diretamente das sombras propositadamente escondidas dentro de nossa Caixa de Pandora individual, e, ainda assim, resolvemos aceitar o chamado uma vez mais, talvez um pouco por coragem, um pouco por curiosidade, mas principalmente para fazer diminuir a dor e o vácuo que esta sede vem nos impor.
Então, lá estava eu aguardando ansioso novamente pela consagração do sagrado chá, desta vez em uma nova casa, a Irmandade Arara Azul, porém com alguns queridos irmãos e irmãs já bem conhecidos.
Este seria um ritual consagrado aos seguintes Ioshins (ou animais de poder), a Coruja, o Gavião Real (Harpia) e o Urubu-Rei.
Nosso irmão (e um dos Dirigentes da Casa) Kablu explica que a Coruja é um animal que tem um alto grau de conhecimento de si mesmo, é o único pássaro que consegue realizar vôos sem emitir ruído algum, não por uma questão de aerodinâmica, mas por conhecer e dominar profundamente suas possibilidades corpóreas. Ela tem uma visão super aguçada, podendo enxergar muito bem mesmo na ausência de luz o que, juntamente com seu exímio controle de vôo, a habilita a ser um potente predador noturno.
Com sua visão, inteligência e auto-conhecimento ela tem o poder de nos trazer as revelações com respeito ao que devemos realizar para evoluirmos em nossas vidas mas que não estamos conseguindo identificar. À ela podemos fazer as perguntas sobre questões que queremos ou necessitamos que nos sejam reveladas.
Já, o Gavião Real, tem uma visão aguçada e é extremamente preciso em mergulhar para agarrar suas presas em solo, mesmo quando partindo de distâncias absurdas ao plainar em alturas elevadas. Á ele se pede auxílio para executar o que deve ser realizado em nossas vidas.
O Urubú-Rei, por sua vez, é considerado o lixeiro da natureza, tem a capacidade de ir à lugares onde nenhum outro animal consegue chegar devido à níveis de toxidade que somente ele consegue suportar. Ao Urubú-Rei é que devemos clamar para que purifique tudo o que nos pesa e que já não deveríamos mais carregar conosco.
O "Vinho das Almas" é servido, tomo apenas meia dose por recomendação do Kablu, "melhor começar devagar, esta Ayahuasca está especial, muito intensa, não vai te arrebentar todo, mas vai fluir com muita potência", ele diz.
Sento-me, fecho os olhos e em poucos minutos já começo à sentir os efeitos do chá.
Luzes, formas geométricas, brilhantes e multi-coloridas que se apresentam em movimentos constantes vão trocando de forma em mirações guiadas pelas vibrações dos maravilhosos pontos que vão sendo conduzidos pelo corpo musical da irmandade.
Uma sensação de leveza, quase como uma ausência de peso começa à se manifestar em mim, sinto como se o sangue houvesse atingido a temperatura ideal para fluir deliciosamente através das veias a percorrerem todo o meu corpo, parece que vou me desprender do solo, mas isto não acontece.
Ao invés, dá-se início a um coro de vozes, inicialmente longínquas, como que cochichos, que vão se aproximando até chegar o ponto em que consigo identificar uma dentre tantas a me dizer: "Porque não caminha um pouco lá fora e aproveita para saudar esta natureza exuberante? Pois você não é, também, parte dela?". Penso "Porquê não, não é mesmo?", e vou.
Mãe Ayahuasca sabe o que faz, nos conduz sempre de forma sábia.
Tão logo me levanto, sinto que o corpo agora parece aumentar exponencialmente tanto em peso como densidade, e mal me aproximo da primeira árvore já me encontro em uma dimensão totalmente distinta da anterior.
A respiração está acelerada, o coração arrebentando no peito, espasmos musculares se esparramam pelo corpo, o estômago contrai, me curvo a frente da majestosa árvore a minha frente e......nada sai, isso mesmo, nada sai, me curvo novamente, um novo espasmo e nada ainda, nadinha.
Um irmão percebe que posso estar em dificuldade e logo me oferece uma saída: "Está com dificuldades para limpar, irmão? Um rapezinho costuma ajudar nestas situações, o que acha?". Aceito, naturalmente, sua sugestão. Peço que seja generoso, mas comedido, pois estou vulnerável e receoso.
Vem o primeiro sopro, na narina esquerda, e "BUUMMM!!!", luzes, zumbidos, eletricidade, o corpo vibra intensamente, o cérebro tenta acompanhar.
Resta mais um sopro, na outra narina, vou conseguir, chamo os guardiões, os guias, os orixás, quem mais está aí? Se for prá ajudar podem vir também!!!
O irmão recomenda, "RESPIRA, devagar....podemos agora?", posiciono o Tepi (instrumento de sopro utilizado para aplicação de rapé em terceiros) e....."BUUMMM!!!" novamente.
Olho para dentro e não gosto do que vejo, seres disformes que me desafiam, não querem partir, me deixar em paz, mas o espírito do Rapé parece ter mexido com eles também, estão azucrinados, agitados.
Meu corpo vibra em uma frequência que mal consigo acompanhar, as mãos se agitam em movimentos rápidos e cíclicos, pareço estar recitando algo em língua muito antiga, caminho em direção à árvore, peço licença, peço ajuda à espiritualidade novamente e começo a descarregar, não somente as impurezas de meu corpo, mas também de minha alma.
Isto se repete por minutos seguidos, o irmão Igor me oferece um copo d'água a qual tomo com muita gratidão e ansiedade, porém nada muda, as sensações permanecem as mesmas e continuo fazendo uma limpeza após a outra aos pés daquela árvore.
Ele diz que vou precisar de um Mago à me atender e pede ao irmão Théo para vir em meu auxílio, ele traz um segundo copo d'água consigo o qual me oferece.
Tomo em apenas dois goles mas a situação ainda persiste. Estou trêmulo, ele se posiciona logo atrás de mim e, acredito eu, realiza alguma manobra no astral que logo vai me colocando de volta ao meu centro. Mais tarde ele ainda me revelaria qual seria o meu Exu de trabalho que veio atuar em meu favor.
Estou de volta, ainda um pouco trêmulo, mas consigo retomar o controle e retornar ao salão do templo onde segue o ritual.
O irmão Theo sugere que, agora que a limpeza foi realizada, devo me concentrar em entender o que os Ioshins têm a me revelar, de acordo com o que eu estaria lá buscando.
Logo ao lado do altar está uma bela tigela funda, contendo algum líquido ou gel inflamável (álcool gel, acredito eu) que arde em chamas e com a qual encontro-me bem de frente à uns cinco metros de distância.
Imagino que após realizar tanta limpeza, o chá somente voltaria à atuar em mim caso eu viesse tomar uma segunda dose, mas como disse mais cedo o irmão Kablu, "...esta Ayahuasca está especial...", e tão logo fecho os olhos ouço: "Cada respiração é uma respiração de Deus!".
Como um Mantra, esta frase começa a ressoar em minha mente em uma deliciosa voz feminina e logo começo a entoá-la repetidamente, não apenas em pensamento, mas verbalizando-a de forma audível também.
A medida que vou entoando, começo à ouvir, na mesma voz feminina e aveludada de antes, o seguinte: "Percebe isto filho, traz para dentro, esta é a seiva da vida, veja ela entrando por seus pulmões, trazendo-lhe vida, este é um presente de Deus, que recebemos à todo momento. Nunca se esqueça disso, a beleza da vida, não somente de sua vida, mas de todas elas, pois cada respiração é uma respiração de Deus e, portanto, devemos respeita-las todas. Permita a outros perceberem isto também".
Enquanto ela me diz estas coisas, vejo o ar entrando em meus pulmões em diversos fios energéticos que irradiam seu brilho em multiplas cores que vão sendo absorvidas pelas suas paredes. Percebo a sinfonia que é a vida, sendo conduzida o tempo todo pelo Criador com perfeição absoluta e me rendo em gratidão.
Percebo também que aquela voz, embora ressoando dentro de meu ser, provém de outro lugar, vem diretamente do fogo que arde a minha frente.
Abro os olhos por alguns instantes e vejo maravilhado, agora não somente as chamas à brotarem daquela tijela, mas também seu rosto lindo, imperturbável, caridoso, sereno e poderoso com seus olhos grandes e azuis à me olharem com ternura e determinação.
Ela me faz entender estar de frente a Deusa Sagrada, grande Mãe do Fogo, que a tudo consome e purifica, mas que também energiza e dá vida.
E logo diz, "Ainda não terminamos, portanto feche os olhos".
Fecho os olhos, no entanto, a partir deste momento, sigo vendo sua face por todo o tempo que segue com seus ensinamentos.
Ela me solicita a destampar minha garrafa d'água, colocá-la a minha frente, gravar meu signo(1) nela, e então diz: "Vê esta água? Consegue sentir sua temperatura, suas partículas a se movimentarem? Percebe como é fluída? É como o sangue que corre em seu corpo, carregando, também, a seiva da vida. Visualize isto, veja a seiva da vida sendo recebida através do ar que entra pelos seus pulmões para serem, então, distribuídas por todo o corpo através do sangue, alimentando e energizando cada uma de suas células. Desça ao nível celular e observe como esta energia é internalizada, fazendo-as pulsar".
Vejo, novamente, o ar entrando em meus pulmões através de diversos fios energéticos que vão sendo absorvidos para então correrem por minhas veias através de todo o corpo.
Então ela diz: "Vamos agora ao elemento terra, mais tarde você deverá tocar diretamente a terra com seus pés, mas agora comece sentindo o chão em que se encontra sentado, perceba sua textura, sinta o calor e a energia que flui incessantemente à partir da terra abaixo deste piso para seu corpo. Abra suas mãos e toque-o com as palmas, deixe que a energia flua através destes chackras. A terra é como a estrutura de seu corpo, ela traz a solidez e a força que te sustentam como matéria".
Creio que não preciso descrever novamente haver vislumbrado esta maravilhosa troca energética.
Ela me convida agora a me sentar a sua frente, perguntando como poderia eu me tornar um Mago das Sete Chamas Divinas(2) sem antes reverenciá-la.
Me encaminho então à apenas dois passos das chamas à minha frente, prosto-me em saudação tocando minha testa no chão enquanto a reverencio e agradeço pelo privilégio concedido e sento-me em posição de meditação à sua frente.
Ela me diz também que eu deveria conhecer meu Mestre de Magia o qual me permite ver seu rosto ao olhar novamente para as chamas à minha frente. Pergunto seu nome e ele apenas diz que não é ainda o momento.
A Deusa, que agora traz ao redor de sua cabeça o símbolo da "Flor da Vida" aparecendo também em linhas brilhantes, multicoloridas, retoma suas explicações, agora sobre seu próprio elemento, o Fogo, mas de maneira um pouco diferente do que vinha fazendo com os outros elementos: "Percebe este símbolo que te apresento agora filho? É a Flor da Vida, esta que te mostro representa a sua vida em específico. Percebe que apesar de toda sua beleza existem alguns pontos que deveriam se interligar para que ela esteja completa, mas que estão apagados? Eles representam os segmentos de sua vida em que você tem falhado. Presta atenção nestes pontos e entende o que deve mudar para sustentá-los ativos. Vou ajudá-lo agora energizando estas suas características que carecem de energia, mas caberá a você mantê-los brilhando como todos os outros para que a sua Flor da Vida esteja plena. Sente agora o Fogo purificando e energizando-o justamente nestes pontos, vê como ele adentra em seu intimo queimando o que te atrapalha, abrindo os dutos energéticos que estão bloqueados. Este é o Fogo do Espírito, é também a mesma Seiva da Vida que venho te apresentando através dos outros elementos, é isto que te anima e dá suporte à sua Vida, percebe e guarda isto com você, nunca se esqueça, cada respiração é uma respiração de Deus e carrega o Sopro do Espírito, o Fogo Purificador e Animador da Vida".
Enquanto ela dizia estas palavras pude ver a energia que saia de suas labaredas entrando por minhas narinas, percorrendo todo meu corpo em línguas de energia multicolorida, encontrando bloqueios e queimando-os, um a um até que tudo pudesse fluir naturalmente.
Após isto ela ainda ficou comigo pelo tempo suficiente para explicar algumas falhas específicas de comportamento e como eu deveria passar a atuar no sentido de resolvê-las.
Terminadas as lições ela indicou que já poderíamos nos despedir, saudei-a e reverenciei-a novamente agora com o coração ainda mais cheio de amor e gratidão não só pelas lições e cura recebidas, como também por haver tido a permissão de vê-la em sua majestosa beleza.
No momento que retorno ao meu canto no templo, o irmão Kablu inicia o chamado à tomarmos a segunda dose se assim sentirmos no coração.
Neste ponto estou extremamente cansado, devido à peia (processos difíceis de limpeza sob a força da medicina) que havia passado anteriormente mas também por toda a carga emocional a qual havia sido submetido, medito alguns instantes se deveria me aventurar um pouco mais pelos caminhos do espírito e neste momento vejo uma última vez na noite o rosto da Mãe Divina do Fogo dizendo: "Esta é uma decisão que você deve tomar por si somente, reflita sobre o que veio buscar e o que estaria disposto à passar para alcançar o que quer".
Pensei em tudo o que Ela havia me ensinado na noite até então e resolvi que apesar do cansaço, eu deveria encontrar forças para mais uma dose. Levantei-me e fui pedir ao Kablu que me servisse apenas um terço do copo. Ele disse que esta Ayahuasca é assim mesmo, muito intensa na primeira dose, mas mais tranquila na segunda, e serviu-me então o que pedi.
Tomei umas boas goladas de água e sai para o jardim, próximo à fogueira externa para que, descalço conforme a Mãe do Fogo havia me recomendado, pudesse tocar diretamente a terra e sentir fluir a troca de energias.
Mal inicio uma breve conversa com o irmão Alexandre e logo começo uma nova limpeza, desta vez muito mais branda, e somente física.
Irmão Kablu vem nos chamar a retornarmos para dentro do espaço do templo pois agora iria nos conduzir por uma meditação guiada na força dos Ioshins.
A meditação começa por nos levar a visualizar nossa estrela pessoal brilhando a apenas cinco dedos de nossa fronte, devemos perceber como é seu brilho, sua cor, sua temperatura. Ele explica que ela é nosso Atman, ou Eu Superior, podemos perguntá-la sobre seu nome e podemos trazê-la à consciência sempre que precisarmos conversar com ela sobre qualquer coisa, como pedir conselhos por exemplo. Pergunto sobre seu nome e ela o revela a mim.
Somos guiados a recolhê-la em nosso íntimo para na sequência então encontrarmos nosso Ponto de Forças individual. Não demora muito e me vejo caminhando por meu Ponto de Forças. Adentramos-o e devemos encontrar uma porta através da qual devemos atravessar para chegarmos ao centro de nosso Ponto de Forças, lugar sagrado onde somente nós mesmos, guias, guardiões e entidades de luz que nos acompanham podem acessar.
Lá visualizamos os três Ioshins Sagrados chegando um a um para então pousarem no galho de uma árvore próxima.
A Coruja então levanta vôo e vem pousar de frente a mim. Sou levado a percebê-la em todos seus detalhes, sentí-la como uma força que se une a mim, e perguntá-la sobre o que vim buscar. Ela retorna ao galho junto aos outros Ioshins e logo vem o Gavião Real pousar à minha frente. Repito o processo, percebendo-o e sentindo-o, e realizo meus pedidos. Ele então retorna também à árvore, dando espaço ao Urubú-Rei se apresentar. Novamente sinto-o, analiso-o e peço para que me purifique sempre.
Neste momento o restante dos Ioshins descem do galho e juntos, todos os três se colocam à minha frente. O irmão Kablu indica que um deles deverá dar um passo à frente e este será o que me acompanhará pelo resto da noite durante o ritual.
O Urubú-Rei é quem se apresenta, não somente se coloca um passo à frente dos outros dois Ioshins mas encosta sua cabeça em meu peito como que me cumprimentando ou querendo receber afagos. Sou então guiado a tocar em seu bico com o dedo indicador para realizar uma troca de corpos com ele.
Me encontro agora incorporado no Urubú-Rei e alço vôo. Vou bem alto, acima de meu Ponto de Forças, e voando em círculos enxergo a imensidão ao nosso redor, a montanha sobre a qual me encontro, o Jardim Secreto onde me encontrei anteriormente com os Ioshins, olho para os lados e vejo minhas asas enormes, pretas, com as penas vibrando através do vento que sustenta meu peso. Sou convidado a visualizar meu corpo humano lá embaixo à beira do meu laguinho particular, que agora deve estar servindo também ao Urubú-Rei para que experimente um pouquinho da vida em forma humana. Dou um mergulho em curvas, pouso em frente a meu corpo e tornamos a trocar de corpos. Sei que sentirei falta do Urubú-Rei, mas nossa experiência conjunta ainda não acaba aqui.
Os outros dois Ioshins descem da árvore, nos despedimos e agora sou convidado a ir saindo de meu Ponto de Forças para então retornar ao ponto do ritual em que estávamos antes do início desta meditação guiada.
Somos convidados a recebermos o sopro de um Rapé que o irmão indicou como "...especial para ativar a visão do Ioshin que irá te acompanhar..." para na sequência seguirmos com um rezo em língua indígena à beira da fogueira externa.
Novamente recebo o sopro em ambas as narinas, é forte, mas não tanto quanto o anterior.
Logo entro em uma espécie de "transe meditativo" que me coloca novamente em contato com o Urubú-Rei.
Agora me parece que estamos os dois juntos no mesmo corpo, ou tão próximos que não é possível perceber quem é quem. Mergulhamos através de um buraco longo e profundo no solo logo abaixo de nossos pés, e por alguns minutos que parecem não terminar nunca, continuamos mergulhando, cada vez mais profundamente. Começo à ficar impaciente e pergunto aonde estamos indo e quando iremos chegar ao nosso destino, pergunto até mesmo se há um destino em vista. Ele pede calma e tranquilidade, diz que se eu aguardar poderá valer a pena. Mais alguns minutos eternos e perco novamente a paciência, pergunto porque não chegamos nunca, ele se rende, diz que se eu tivesse mais paciência poderíamos chegar ao final, mas como não tenho, ele apenas mostra em minha mente uma floresta de pinheiros linda com um grande lago sob um céu totalmente aberto e ensolarado e diz: "Este é o lugar, veja como o céu se abre, mesmo após uma longa jornada através destes labirintos escuros, o destino que te aguarda é este que te apresento. Tenha paciência e persista, quando terminar o que está construindo com sua família irá alcançar o que o reserva. Mas deverá trabalhar em fazê-lo com atitude positiva, olhando sempre para as bençãos que o envolvem, não para os obstáculos que encontra em seu caminho".
Após esta visão retornamos como que em um piscar de olhos para o jardim externo do templo e lá estava o Kablu já convidando a nos agruparmos em torno da fogueira a fim de acompanharmos o rezo que já ia começando pela voz do irmão Eduardo.
Sento-me sobre uma tábua de madeira ao lado da fogueira e continuo recebendo insights e mensagens deste Ioshin, que vai me revelando sobre sentimentos, comportamentos, emoções e até mesmo objetivos a serem atingidos para alcançar o que estava buscando.
Enquanto vai trazendo estas informações, visualizo-o seguindo por dentro de meu corpo, "comendo" partes que parecem apodrecidas e que se encontram depositadas dentro de minhas artérias, isto acontece principalmente na região do coração e nas laterais esquerda e direita da bacia.
Finalizado o rezo, retornamos ao salão do templo, os músicos retomam seus lindos pontos, os insights continuam a fluir e algumas revelações ainda vêm à luz.
Em dado momento tenho o prazer de receber seu Pena Azul que rapidamente vem incorporar-se e após uma breve mas acolhedora mironga realizada por ele, nos despedimos.
Percebo, a esta altura da noite, que a força da medicina já vai se recolhendo e eu já vou também retornando a minha "normalidade" cotidiana quando também é chegado o momento de finalizar o ritual.
O Kablu faz o fechamento, agradece á todos e dá voz a cada um dos que fizeram parte da egrégora da noite, membros da irmandade e participantes.
Agradecemos, compartilhamos de alguns relatos maravilhosos e logo mais, após algumas conversas interessantes com alguns dos irmãos presentes, nos despedimos.
Escrevi este relato primeiramente para que eu mesmo tenha como relê-lo se caso, algum dia, venha me esquecer de quão maravilhosa foi esta noite em minha vida. E também porquê a Mãe do Fogo deixou muito claro que eu deveria compartilhar os ensinamentos que ela me trouxe, de forma que espero então que possam um dia servir para dar força, entendimento e esperança para mais alguém.
Quero deixar também registrado minha gratidão eterna pela beleza que podemos encontrar na vida quando nos levantamos com força e coragem para enfrentar os percalços que se colocam em nosso caminho. A Mãe Ayahuasca me lembrou, nesta noite, que mesmo quando sofremos, se estivermos abertos a aprender o que a vida tem a nos ensinar e persistirmos em nossa caminhada, ao final o sol poderá se abrir para nós, poderemos perceber o toque da Deusa a nos guiar e ao final descobrirmos do que somos feito.
Salve a Irmandade da Arara Azul, Salve os Ioshins que estiveram conosco, Salve a Grande Mãe Sagrada da Natureza, Salve a Deusa Sagrada do Fogo e, por fim, Salve a Cada Respiração, que é uma Respiração de Deus!!!
(1) Signo que me foi revelado por uma Cabocla Idosa durante um outro Ritual Xamânico com esta Sagrada Medicina, ocorrido anos antes em um outro Templo (talvez ainda conte esta história em um outro dia).
(2) No tempo em que participei deste Ritual que descrevo aqui, participava do Curso de Magia das Sete Chamas Sagradas no Templo Sol de Aruanda em São Paulo.
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