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Salve seu Pena Branca, salve Iansã!

Foto do escritor: Filho de Odla FishFilho de Odla Fish

Atualizado: 20 de mai. de 2021

Ao final de 2019, nesta mesma época em que escrevo este post, me encaminhava, desta vez com minha esposa, para mais um ritual o qual, além de xamânico seria ministrado totalmente pelo casal de índios da tribo Shawãdawa do Acre, o Pajé Nazinho Tetepauã Shawã e sua esposa Ana Shawã.

Estava bastante feliz pois apesar da vivência ainda quase nula nas energias da medicina e em rituais indígenas por estar indo na ocasião para meu segundo ritual, este ocorreria com a liderança de personagens que se relacionam com a Mãe Terra não como um ocidental encantado como eu, mas que vivenciam esta troca em seu cotidiano como algo natural.

Fiquei surpreso já no início do ritual pois logo após os agradecimentos e apresentações iniciais em respeito à cultura e propósito dos índios ao compartilharem conosco uma parcela de sua visão e entendimento quanto à natureza do sagrado, nos pediram para que os homens se colocassem de frente à ele ao lado da fogueira em que estava e as mulheres se colocassem ao lado oposto de frente à sua esposa e assim permanecessem organizados o que, embora não tenha sido dada muita explicação, entendí como que para deixar bem definido onde as energias masculina e feminina estariam em circulação durante o processo.

Mais tarde veríamos também que as aplicações de outras medicinas como o Rapé e a Sananga seriam ministradas às mulheres pela índia Ana e aos homens pelo índio Nazinho.

E logo na sequência tive uma segunda surpresa ao presenciar que, para o começo do ritual, o casal indígena nos pediu para ficarmos todos em pé e seguirmos à acompanhá-los à orar ambos o "Pai Nosso" e "Ave Maria", mostrando que mesmo sendo eles herdeiros de uma cultura e sistema de crenças milenares que carregam rituais os quais em diversos lugares e momentos do planeta foram classificados como pagãos chegando à ser motivo de perseguição e assassinatos, conseguem separar as ações dos homens, cegos por poder, dos seres os quais também reconhecem como iluminados.

Terminadas as orações fomos servidos com a primeira dose do chá sagrado da ayahuasca.

Os efeitos do chá ainda mal haviam começado à ser sentidos em nossos corpos quando foi também anunciado que as aplicações da medicina do rapé teriam início para os que o quisessem.

Entrei na fila e fui informado por um dos irmãos polimatas, que avisasse ao índio Nazinho que eu não estava ainda acostumado à medicina o que eventualmente o sensibilizaria à dar seu sopro de forma um pouco mais suavizada comparado ao que era de costume quando aplicando aos membros de sua tribo e aos irmãos já acostumados à ela.

Havia lido que o ato de soprar durante o ritual não se tratava apenas de um recurso mecânico empregado para depositar o pó sagrado em nossas narinas, mas de uma ação carregada de propósito tanto pelo sacerdote que executa o sopro como por quem o recebe à fim de estabelecer uma conexão espiritual entre o sacerdote indígena, o receptor da medicina e os espíritos da floresta que estariam presentes durante o ritual.

Conforme sugerido, ao me colocar em pé diante do nosso sacerdote avisei sobre minha falta de experiência e ele assentiu em reconhecimento.

Apesar de acreditar, de coração, que ele o tenha de fato entendido e tomado o cuidado de tornar brando o seu sopro, penso que ainda assim, a firmeza de propósito que empregou, em comunhão com a potência da medicina trazida pelo casal e preparada por integrantes de sua tribo no Acre, teve um efeito de tal intensidade em mim que fez com que, durante o sopro, sentisse como que para dar lugar ao que estivesse entrando em meu corpo, minha alma houvesse dado um breve porém brusco salto para fora do mesmo.

Superado o susto e tendo recebido o segundo sopro na outra narina, todo o meu corpo entrou em intensa vibração como se uma sequência de ondas de eletricidade o percorresse de cima abaixo e então de baixo acima novamente em ciclos que devem ter durado cerca de dez minutos.

Tive também a impressão de que a aplicação do rapé possa ter acelerado os efeitos do chá o que acarretou um processo de miração bastante intenso e vibrante o que logo me levou à iniciar também um processo de limpeza que durou pouco tempo mas permitiu, na sequência, um ritmo de sensações e mirações mais amenos aos quais eu teria como acompanhar sem sair dos trilhos (rss....).

Os indios iniciaram à tocar seus instrumentos enquanto cantavam seus pontos tanto em português quanto em sua língua nativa o que ia definindo o fluxo das sensações e mirações ao mesmo tempo em que revelações e aprendizados eram depositados em nossas consciências em forma de símbolos, formas, sons, cheiros e sensações.

Em determinada altura o Nazinho anunciou que a aplicação da medicina da Sananga teria início, também para os que a quisessem.

A Sananga é um colírio que segundo os indígenas, além de conter diversas propriedades de cura como, por exemplo, ser anti-inflamatória e eliminar cataratas, permite uma melhora significativa da visão física e também maior sensibilidade da visão espiritual eventualmente permitindo à quem fizer o uso da mesma à fazer contato visual com seres e energias mais sutís.

Como já havia feito o uso da mesma durante o primeiro ritual com as medicinas da floresta, sabia ser verdade que ao menos a visão física parecia ganhar de fato maior nitidez após sua aplicação então, embora tivesse de lidar com alguns minutos de ardência que costuma causar em nossos olhos, pedí que fosse aplicada também em mim.

Mais tarde os ogãs tiveram espaço e, como de costume, começaram à cantar seus pontos inspirados enquanto tocavam o violão e atabaques.

Foram anunciadas a segunda dose do chá e então também do rapé as quais apenas tive disposição para receber uma dose do chá dispensando, desta vez, o sopro do índio.

À determinada altura do evento, quando os efeitos do ayahuasca já faziam efeito novamente, meu corpo começou meio que tentar se rebelar livrando-se do domínio que eu, durante toda a vida, tive sobre ele.

Primeiramente meus braços começaram à tremer como que se por vontade própria quisessem se movimentar livres ou talvez sob a hipnose dos sons emitidos pelos músicos, pelo vento, pelo estalar da madeira no fogo, arrastar de passos, conversas, enfim, tudo ao meu redor.

Quanto mais tentava impedí-los com maior intensidade eles tremiam e formigavam enquanto também aumentava uma sensação de angústia e desorientação.

Comecei então à perceber que ao ceder um pouquinho do controle do corpo ao próprio corpo ou ao que quer que fosse que tentava controlá-lo naquele momento, em lugar da angústia agora começava à sentir uma sensação de alegria e em lugar de desorientação, agora percebia melhor o fluxo das mirações e até conseguia acompanhar o seu movimento mesmo quando acelerava mais.

Larguei mão então do controle, entregando meu pensamento e meu coração à grande Mãe Divina e quando ví meus braços, mãos e dedos bruxuleavam e expiralavam-se ao ritmo de tudo o que......tivesse ritmo !!!.

Isto continuou por um bom tempo e quando já estava totalmente acostumado e até mesmo confortável com estes movimentos totalmente involuntários dos braços, percebí que agora quem desejava também se rebelar eram as minhas pernas.

Neste momento pensei que me levantar já poderia ser demais, embora a experiência com os braços estivesse sendo boa e até prazeiroza, estava seguro no meu espaço sentado à um canto da fogueira sem me expor muito e nem incomodar os demais, então segurei o quanto pude.

O tempo na força da medicina parece não acontecer no mesmo rítmo do tempo no mundo físico (embora este já seja um tanto relativo) e tive a impressão de ter batalhado com minhas pernas por quase uma hora quando os ogãs iniciaram um ponto que parecia invocar o Seu Pena Branca ao mesmo tempo que sugeria que deixasse ele trabalhar.

Neste ponto minhas pernas já tremiam tanto que mais pareciam espasmos de alguém que sofre de epilepsia e então, reconhecendo que aquilo que estava acontecendo era maior que eu, resolví mais uma vez ceder o controle e logo descobrí que nunca iria me arrepender por tê-lo cedido.

Me levantei, dancei com a música, fui até a fogueira algumas vezes, pedí licença e proteção à Grande Mãe Divina (a Mãe Natureza), aceitei-a em meu coração e deixei-me guiar por ela.

Sentí então a aproximação de Seu Pena Branca que respeitosamente se colocou à disposição para que através de mim, pudesse realizar o que veio naquela noite fazer.

Tudo ocorreu na força da confiança e intuições que parecia estar recebendo da Sagrada Deusa e, embora nunca tivesse ocorrido qualquer experiência similar em minha vida até então, cedí passagem para que Seu Pena Branca pudesse guiar meu corpo e minha mente.

Sentí a paz que trazia consigo mas também toda a força e virilidade de caboclo de forma que eu mesmo parecia experimentar toda a sua força percorrer pelo meu corpo.

Tudo ficou muito mais claro ao meu redor e ele logo começou à causar um tipo de movimento em forma de redemoinho de luz clara e brilhante em torno de todos com seu epicentro na fogueira de forma que todos estivessem envoltos naquela atividade enquanto invocava dos céus as forças das hierarquias superiores e declarava, batendo a mão no peito e extendendo-a ao céu com um grito de índio guerreiro, que naquele momento alí firmava seu ponto tomando o controle daquele terreiro e limpando todas as impurezas que ali estivessem submetendo-as aos desígnios da luz.

Neste momento um facho de luz viva conectou-se através do topo de sua cabeça (embora estivesse incorporado, percebia claramente o que ele realizava) com o céu ao mesmo tempo em que o redemoinho de luz ia cessando até que tudo se acalmou.

Embora certamente este tenha sido o ápice daquele ritual para mim, ele ainda permaneceu conosco até o final do ritual o que me deu tempo para perceber ainda outras realizações as quais me causaram muita emoção.

Em certo momento nos encontrávamos sentados ao redor da foqueira de costas para a casa e de frente para a mata que havia ao fundo da área do terreiro.

Haviam algumas pessoas ao meu lado e estávamos meio que meditativos ouvindo neste momento os ogãs entoando um canto com ritmo mais suave e ao olhar para mata através da fogueira me surpreendi com o que ví.

Ví dois índios e uma índia saírem da mata seminus, vestindo seus cocares e suas vestimentas de índios que se tratavam praticamente do necessário para taparem-lhes o sexo.

Arregalei os olhos pois não acreditava no que via e, enquanto eles caminhavam em nossa direção, à medida que se aproximavam fui percebendo se tratar de irmãos polimatas que caminhavam alí e que pareciam estar também incorporados pois em determinado momento a imagem dos índios se sobrepôs com a imagem dos irmãos os quais em verdade estavam totalmente vestidos de branco, até o ponto em que a imagem dos índios se dissipou totalmente deixando apenas a visão dos irmãos que se aproximaram e se sentaram juntos à todos.

Na sequência olhei para um lado e para o outro meio que para tentar pescar um olhar de cumplicidade de alguém que eventualmente tivesse percebido o mesmo que eu mas ao invés disto, ao olhar para os dois rapazes que se encontravam sentados neste momento à minha direita, percebí (ou melhor, o Seu Pena Branca percebeu) que ambos estavam acompanhados cada um por um ser distinto e que pela imagem horrenda e distorcida de cada pareciam ser obsessores.

Seu pena branca então desviou o olhar para a fogueira novamente e apenas com um aceno de sua mão direita e com a ordem que brotou do pensamento dizendo-os que deixassem os rapazes em paz fez com que ambos partissem muito rapidamente e acuados.

Logo mais percebí que já nos aproximávamos do final do ritual pois agora o canto que era entoado chamava-nos à gratidão e á percebermos as bençãos conquistadas.

Como que parecia haver uma comunicação ou compartilhamento de pensamentos entre mim e o Sr. Seu Pena Branca, neste momento pensei em agradecer à todos os irmãos e responsáveis pelo ritual bem como à minha esposa por haver me acompanhado naquela noite sabendo o quão importante era para mim e também aproveitar para parabenizá-la por seu aniversário que por coincidência estava sendo naquele mesmo dia.

Seu Pena Branca então parece ter tomado à frente tratando logo de fazer os agradecimentos e também parabenizando-a.

Digo que foi o Seu Pena Branca quem o fez pois de fato o percebí fazendo e além de que percebi também que tanto o sotaque quanto a voz que saiam de minha boca não eram meus e para finalizar ele à chamou de irmã e não de esposa !!!

O Felipe, comandante daquele templo em Jundiaí, anunciou então que o ritual seria finalizado e passou a palavra ao casal de índios.

O Nazinho então fez seus agradecimentos e até um convite para os visitarmos oportunamente no Acre e passou a palavra para sua esposa Ana para que fizesse seus comentários e agradecimentos finais.

A Ana então após algumas palavras chamou as orações de fechamento e, durante a "Ave Maria", acredito que fomos também agraciados pela presença de Iansã pois neste momento um vento sibilou formando um redemoinho em torno da fogueira o que a fez ganhar força enquanto terminávamos a nossa oração, olhei para a Marcia, minha esposa e ví que ela me olhava também com os olhos arregalados pois havia percebido o mesmo que eu e por isso mesmo não poderia terminar este texto sem colocar aqui minha gratidão e o meu Salve ao Sr. Seu Pena Branca e também à Mãe Iansã por terem me mostrado toda sua força e presença nesta data tão especial !!!!

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