
Se estivéssemos realmente à fim de respeitar a ordem cronológica em que as descobertas e experiências com a medicina sagrada da Ayahuasca foram, de fato, tomando espaço em minha vida, este deveria ter sido o primeiro artigo à ser publicado, não o terceiro.
No entanto, não seria correto afirmarmos que absolutamente nada advindo do mundo espiritual ocorre em nossas vidas de acordo com as organizações mentais de nosso raciocínio e muito menos com as noções de linearidade tal qual experimentamos o tempo ?
Os ensaios vivenciados "na força" e os fragmentos de aprendizados e memórias que eventualmente emergem destas experiências são percebidos de maneira totalmente subjetiva, através da intuição, não como modelos matemáticos claros em que podemos saber de antemão o resultado ao aplicarmos todas as fórmulas e teorias conforme suas regras bem definidas.
Por isso agora consigo escrever estas linhas, o aprendizado não tem necessariamente uma relação exclusiva com uma única experiência e, embora eu venha aqui relatá-la conforme o que ela me entregou até então, sua textura e significados vão se modificando constantemente e assim vão ganhando corpo e vida própria.
Posso também dizer que esta experiência teve início ainda muito antes da data em que conheci a medicina.
Durante a infância e início da adolescência, mais ou menos entre 4 e 15 anos de idade, vez ou outra me pegava tarde da noite em meu quarto tremendo de medo sob as cobertas tentando me desvencilhar da mente paralizada e coração congelado enquanto alguma criatura me observava com seus olhos vermelhos, fixos e hipnotizantes e com aquele sorriso transbordando de mistérios e conhecimento.
Mesmo quando parecia não haver ninguém à me observar, tinha ainda aquela sensação de perda total do controle das funções corpóreas, como se agora, embora invisível, a criatura tivesse resolvido expulsar o meu espírito do próprio corpo para se apoderar dele.
Mais tarde aprendi que à isto se dá o nome de "paralisia do sono" e que eventualmente poderia se tratar de uma fase pré desdobramento astral a qual meu medo nunca permitiu espiar o que poderia acontecer do outro lado do véu.
Meus pais, médiuns atuantes no centro espírita que frequentavam, uma vez que possuiam um bom entendimento do que deveria estar se passando comigo, sempre me diziam que ao invés de temer, eu deveria aprender mais sobre estas experiências e que isto iria ser importante para meu futuro desenvolvimento da espiritualidade.
Claro que não preciso dizer que, como já estava muito assustado com as experiências até então, nunca que poderia conceber a idéia de me aprofundar ainda mais naquele mundo que para mim era aterrorizante.
Com o fim da fase lúdica da infância e mais tarde a proximidade da puberdade, a crença no mundo material foi se cristalizando seguindo o mesmo processo da glândula pineal até que as visões cessaram totalmente e as sensações, embora ainda presentes, foram perdendo a intensidade até o ponto de não mais incomodar.
Apesar de nunca haver, de fato, abandonado a crença na existência de um mundo extra físico e até mesmo seguir buscando por leituras de cunho esotérico, por um tempo considerável a vida pareceu entrar na normalidade.
Foi quando me formei, cresci no trabalho, me casei, tive filhos, comprei minha casa, tirei férias, fiz festas, me embreaguei, fiz algumas viagens e comi churrasco com os amigos.
Não foram as leituras, mas aquela sede constante do espírito que insistia em me lembrar que alguma coisa importante havia sido deixada para trás.
Era como a sensação de sair de casa para uma longa e distante viagem e não se lembrar se deixou a chave na maçaneta pelo lado de fora da casa, teria de voltar para averiguar.
E comecei então à tentar me lembrar do caminho de volta.
Fui procurar ainda mais à fundo nas diversas literaturas mas a sede não passava, entendí que não era a mente que estava sedenta.
Precisava encontrar um caminho que pudesse vivenciar além da teoria, mas não conseguia entender e muito menos aceitar quaisquer dogmas e imposições, não admitia a idéia de barganha, a prática do bem não deveria ser assim tão egoista, "faça para os outros em benefício de sua própria salvação".
Conheci a Gnose, aprendí à meditar em um templo budista, lí a história de diversos mestres iluminados, fui irmão na loja maçônica e membro rosacruz, mas não me dei a oportunidade de aprofundar em nenhuma destas filosofias ou religiões pois quanto mais tentava mais alimentava e dava poder para a mente, principal ferramenta do domínio e soberba do ego quando este não encontra sua contraparte capaz de harmonizar as energias.
Então percebí que o problema não estava nos ensinamentos, estava em mim.
Comecei à entender que me faltava o componente básico sustentador da vida e da criação, a energia que habita no coração e que quando ativado, se irradia e edifica, fecunda, sustenta, ensina e liberta sem querer nada para si, e também não teme a morte pois sabe que ela é apenas um breve momento de uma existência muito maior.
Ví que pela primeira vez comecei à pensar sobre o Amor com uma certa responsabilidade, sem que fosse de uma maneira egoísta e controladora, sem querer o bem somente dos meus e próximos à mim apenas para que eu não sofresse com a perda, mas percebí também que embora começasse à entender um pouco do que me faltava, ainda era de uma forma muito racional pois sentia o coração bloqueado e oprimido.
Isto me levou à uma depressão a qual durou alguns anos e à medida que o tempo ia passando a sede aumentava ainda mais até o ponto de não mais aguentar e perceber que deveria descer do pedestal e, com humildade, pedir ao criador que me mostrasse o caminho.
A resposta não foi imediata, até mesmo porquê embora o quisesse não estava ainda pronto para escutar o que o mundo sutil tinha para me dizer.
As peças foram aos poucos e de forma um tanto subjetiva se encaixando por meio de pequenas coincidências e mensagens que iam chegando através das mais improváveis fontes, desde um artigo qualquer em um panfleto religioso entregue no farol até um vídeo ou livro que um colega do nada comenta e que te atiça a curiosidade para ir cutucar um pouquinho mais.
Já tinha ouvido falar do Ayahuasca e embora houvesse um certo fascinio por entendê-lo, havia também o preconceito, um certo cetiscismo e, por consequência, o medo.
Tinha bastante material como este que escrevo agora, contando as experiências de novatos e experientes em rituais com a medicina, mas queria me certificar e comecei à procurar por garantias que, no meu entendimento, só poderiam ser encontradas em artigos e estudos científicos.
Para minha surpresa encontrei bastante informação que apontavam para estudos em andamento e, como nenhum deles trazia qualquer indicação de eventos e resultados que me desencorajasse e alguns até eram promissores mirando em potenciais benefícios futuros relacionados à cura de algumas doenças, resolvi me empenhar então em encontrar um lugar que não banalizasse ou desvirtuasse o uso da medicina e que estivesse o mais próximo possível da fonte e das tradições que fazem uso da mesma em seu espaço sagrado.
Neste momento, por não conhecer ninguém que já houvesse declaradamente tido contato com tais rituais e com a medicina, optei por exercitar o "abrir mão" um pouco do controle e escolher através da intuição.
Fiz uma seleção de algumas entidades que consagram a medicina em rituais xamânicos e uma vez de posse de uma lista pequena, escolhi aquela que, conforme costuma-se dizer, "bateu a química", ou seja, aquela pela qual senti que deveria ser onde daria o primeiro passo.
Falei com um amigo à respeito e, como ele também se interessou, marcamos nosso primeiro ritual, sendo este um ritual xamânico.
Logo ao chegarmos no Templo em Jundiaí, uma casa de chácara simples mas acolhedora, sentí que alí iria encontrar o que buscava, pois a vibração que sentí no momento pareceu me acariciar a alma machucada.
Tudo o que tinha lido e ouvido à respeito serviu para me colocar em um estado bastante receptivo à novidade em que tudo seria tratado primeiramente pelo coração ou talvez pelos sentidos de maneira à deixar de lado por aquela noite os julgamentos e tentativas de trazer tudo para termos racionais que representassem minha área de conforto e segurança.
Os irmãos e irmãs que nos receberam foram também muito atenciosos e nos passaram algumas noções iniciais do que esperar (ou não esperar), em qual o estado de espírito se colocar, e outras tantas mais como o tipo de assistência prestado e o formato do ritual, a peia e a força.
Explicaram também que a Ayahuasca, por se tratar de uma poderosa energia da natureza, se comporta como uma Mãe amorosa que nos ensina e repreende na medida certa que precisamos para seguirmos o caminho da luz e que, se durante o ritual mantivéssemos nossos pensamentos e corações em sintonia com a Mãe Divina, ela nos guiaria através dos ensinamentos que precisávamos receber naquele momento.
Nos sentamos todos ao redor de uma foqueira e o ritual teve início com cântigos que pareciam variar entre pontos de umbanda e indígenas e eram acompanhados pelo som de atabaques e violão.
Houve aplicação de rapé para quem o quisesse, e depois tomamos a primeira dose do chá de Ayahuasca e, mais tarde houve também a aplicação do colírio de sananga que além de benéfico para os olhos, tem também o propósito de abrir a visão.
Mais alguns minutos e comecei à sentir uma formigação correr pelo corpo todo a qual foi se amplificando até sentir como se todas as células de meu corpo iam se separando e diluindo no ar para então voltarem à se reagrupar em uma dança que acompanhava o ritmo das vibrações musicais.
Paralelo à isto, ví que luzes de cores fortes e cintilantes se organizavam e reorganizavam em forma de fractais os quais percorriam meu corpo não somente pela superfície da pele, mas também através dos órgãos internos, como se eu pudesse enxergar tanto o lado de dentro como o de fora ao mesmo tempo, sem necessitar colocar o foco em um único ponto.
Esta dança de luzes e cores, as vibrações e reorganização da matéria permaneceram por muito tempo e, à determinada altura do ritual elas começaram à se expandir para tudo ao meu redor, como se houvesse uma conexão energética que unificava meu corpo à tudo o que era vivo, principalmente às àrvores e à mata ao lado da fogueira.
Eu via e sentia o fluxo energético sendo trocado com o mundo e neste momento percebí de forma intensa e absoluta que não havia eu e o resto das coisas uma vez que pertencíamos à mesma matriz de energia vital e dela todos dependemos ao mesmo passo que à ela todos alimentamos.
Isto me deu uma primeira noção de pertencimento e amor recíproco aos reinos sagrados da natureza.
Mais tarde, diversas criaturas da floresta começaram à aparecer iluminados sob este mesmo campo de luz e vibrações em que todos nos encontrávamos.
Todos passavam através de mim me olhando nos olhos enquanto eu acordava para reconhecer seu valor no reino natural.
Então minha visão se voltou novamente para meu interior e lá dentro ví que uma Jibóia enorme se encontrava com a cabeça repousada no centro de meu peito, logo ao lado do coração e ela também me olhava fixamente.
Apesar do breve susto ao vê-la alí em um lugar tão improvável, não me amedrontei pois senti como se ela fosse realmente uma parte de mim que precisava de atenção não por estar carente, mas para poder me ajudar em minha caminhada.
Era ela a Jibóia Encantada que vinha para me guiar.
Reconheci também o seu valor e logo após isto, talvez pelo fato de o efeito da medicina no corpo já ir diminuindo, as visões foram gradativamente se diluindo até se esvairem totalmente.
Neste momento os músicos também se dispersaram e os irmãos indicaram que uma segunda dose da medicina seria servida à quem o quisesse.
Um dos irmãos veio perguntar como eu estava e neste momento sentí e reconhecí que todos alí não me eram estranhos embora não os conhecesse até então.
O próprio irmão, neste momento me perguntou:
"Como você se sente voltando para casa ? Não somos todos irmãos de há muito tempo ?"
Por estranho que pareça, a resposta que brotou do peito sem nenhuma exitação foi que sim, também os reconhecia de tempos há muito esquecidos e agora sentia o coração regozijar pois sabia que os reencontrava naquele momento.
O caminho de volta há tanto esquecido agora começava à retornar à memória da alma, mas sabia que era só o começo da caminhada, fiquei tão distante por tanto tempo e ainda teria muito o que recordar para poder chegar ao ponto de passar novamente por aquela porta que havia deixado para trás.
Nesta mesma noite tomei a segunda e então a terceira doses da medicina o que me levou à novas sensações e percepções as quais talvez eu conte em uma outra oportunidade, mas posso adiantar que apesar de minha timidez e total falta de coordenação motora, nesta mesma noite eu ainda me peguei à dançar em torno da fogueira como faziam nossos ancestrais e assim pude fazer as pazes com a grande Mãe Divina que até hoje vem me guiar em cada passo que dou em direção de volta à casa.
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