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Conhecendo Shiva

Foto do escritor: Filho de Odla FishFilho de Odla Fish

Atualizado: 20 de mai. de 2021

Em minha curta experiência com a medicina do Ayahuasca, já havia participado de alguns rituais de consagração os quais tiveram cada um, como pano de fundo, ritualísticas xamânica, budista, umbandista e védica.  Todos foram maravilhosos e trouxeram aprendizados importantes, revelando tipos diferentes de energias e trazendo significados importantes ao meu crescimento e desbloqueio espiritual. No entanto, gostaria de destacar um evento específico que acredito me marcou profundamente. Se trata de um ritual védico ocorrido em Março deste ano de 2020 onde a deidade consagrada foi Shiva, tido como o deus da destruição e regeneração segundo o hinduísmo. Antes do início do ritual e mesmo durante outros anteriores alguns irmãos já haviam me indicado que este ritual específico traria ingredientes com um grande potencial de me fazer confrontar questões emocionais e espirituais arraigadas muito profundamente em meu íntimo as quais, se bem entendidas e processadas poderiam dar início à uma transformação ainda mais intensa e talvez até uma nova forma de olhar para o mundo.  Confesso que tais informações, em comunhão com as experiências em rituais anteriores, os quais sempre trouxeram desafios à serem enfrentados para que uma vez vencidos pudessem revelar as pedras preciosas ocultas no interior da pedra bruta, me colocaram em um estado que misturava excitação pela oportunidade de passar por uma experiência ainda mais intensa e profunda e ao mesmo tempo um medo do oculto e, principalmente, da possibilidade de descer aos subterrâneos do meu ser em face do que poderia ser ali encontrado. Como já devem saber, a medicina do Ayahuasca não dita de forma alguma por quais experiências o indivíduo irá passar nem como se darão tais experiências, pelo contrário, a medicina tem o papel de abrir e/ou ampliar a percepção de forma que se possam ser percebidos não somente os mundos sutís ao nosso redor (ou interior), como também as energias, seres e emoções que os habitam. Estes mundos podem ser percebidos de maneiras diferentes à depender do nível de sensibilidade que o indivíduo se encontra durante o ritual, o que vai de cheiros, sensações físicas e visões de formas e cores à encontros com entidades das mais variadas que podem ou não ocorrer em reinos de beleza ou terror inimagináveis. Voltando à experiência perante à Shiva, no templo em que costumo consagrar a medicina é comum que haja alguma preleção ou mesmo palestra ao início de cada ritual para que os participantes tenham uma visão prévia e um certo entendimento quanto ao ritual, deidade e ou energias que estarão sendo trabalhadas ali e assim se colocar em um estado de espírito mais receptivo ao aprendizado e potencial transformação que poderão se processar durante o decorrer do mesmo. Neste caso, recebemos um irmão do templo com um vasto conhecimento da cultura e religião hindú, bem como das escrituras védicas e as deidades relacionadas às mesmas. Ele nos contou um pouco da história de Shiva e sua consorte bem como sobre a forma que ele atua na vida de quem se abre à sua presença. Explicou também que durante o ritual haveriam três momentos distintos em que entoaríamos mantras específicos, em idioma Sânscrito, os quais teriam o papel de criar uma egrégora favorável à presença da deidade e, por consequência à sua atuação em nossas consciências. Achei tudo isso muito bacana em termos de aprendizado racional e ampliação de minha diminuta cultura quanto ao hinduísmo, mas não conseguia entender muito bem como um mantra entoado em uma linguagem que não poderia ser compreendida por mim poderia fazer alguma diferença. Não fazia a menor idéia que este seria o momento de maior impacto e transformação pela qual iria passar eu diria que, em minha vida, até então. O ritual se deu início, tomamos a medicina e, enquanto os músicos tocavam e cantavam canções envolventes, seu efeito ia dando início em nossos organismos. Após alguns minutos já sentia seus efeitos e me encontrava em um estado meditativo profundo tal qual como em rituais anteriores em que meu ponto focal vagava entre mosaicos maravilhosos, sons, símbolos e sensações de unicidade com o todo quando fomos chamados à nos reunirmos ao redor do irmão e juntos recitarmos o primeiro dos mantras previstos. Estava, de fato, muito tranquilo e com pensamentos elevados ao sentar-me e, tão logo aqueles sons se deram início, fui como que sugado de um céu relativo em que me encontrava às profundezas de um inferno que logo identifiquei ser meu. Meu corpo todo se aqueceu à um ponto tal que cheguei à tremer de desidratação o que me fez ir engatinhando até o cantil de água para tomar um copo antes que perdesse os sentidos. A hidratação aliviou um pouco a sensação física, mas não a experiência propiciada pelos outros sentidos, pois me encontrava bem no meio deste inferno onde as paredes eram todas feitas de carne humana crua e cintilante e o ar era pesado à tal ponto de me curvar em desespero enquanto sentia um aperto intenso no peito ao mesmo tempo que uma depressão profunda se apoderava de mim. Ao conseguir focar um pouco a mente e olhar para meu próprio corpo, percebi que não tinha a pele sobre a carne e praticamente me confundia com as paredes daquele reino de desespero o que me fez perceber que eu não estava naquele momento naquele reino, mas era o próprio reino e este era eu.  Me situava em meu próprio interior em um local em que reinam sensações e sentimentos de destruição. Não conseguia me desvencilhar das visões e sentimentos que experimentava e fui me dando conta de que a única maneira de conseguí-lo passava por olhá-los de frente, estudá-los, enfim, mergulhar à fundo na questão para ganhar entendimento (ou sabedoria) para poder processá-los. O mantra deve ter durado apenas uns 15 minutos no entanto, no desespero em que estava mergulhado, me pareceu como horas, mas em determinado momento quando já totalmente curvado e de joelhos com o rosto no chão ví que o próprio Shiva se encontrava ao meu lado, gigante, aparentando ter uns 10 metros de altura, e estava muito claro que era ele quem me causava tais visões e todo o desconforto que elas me traziam pois me faziam perceber que a imagem que eu havia formado de mim mesmo se tratava de algo bem diferente do que realmente sou. O primeiro passo para corrigir os próprios erros é reconhecer que erra, e esta era a situação, a verdade que ele colocava diante de mim me esmagava de tal forma que a única saída seria a da redenção. Ao olhar para Shiva percebi que ele, o destruidor de mundos, me colocava diante do espelho para que todas as ilusões que criei sobre o mundo e, principalmente sobre eu mesmo se estilhaçassem de vez, ele era também meu redentor, pois neste momento ví que toda a opressão que vivia no momento era causada na verdade por meu próprio ego, e não por ele, pois não aceitava o fato de ser o criador de meus próprios pedacinhos de inferno. Percebi que Shiva na verdade me estendia a mão enquanto me enviava a mensagem que sugeria que bastaria eu querer para que ele pudesse entrar em minha vida e o caminho seria através do perdão e do amor. Neste momento me entreguei de coração ao ato sincero de assumir quem eu era de fato e passei à, mentalmente, pedir perdão à todos que havia machucado, à criação e à mim mesmo por meus atos pois entendi que trazia comigo este sentimento de estar fragmentado devido ao fato de rejeitar esta parte obscura de minha existência. Chorei, pedí perdão e perdoei aos outros e à mim mesmo e, neste momento senti todo o amor de Shiva me envolvendo o que me colocou novamente na posição ereta que é como todo o homem sincero deve se colocar, sem mágoas, culpas, rancores ou quaisquer pesos à carregar, somente a leveza e a verdade do amor. Me sentí curado, aceitei quem sou e assumi meus erros e então pude tirar um peso incrível de meus ombros fazendo me sentir mais leve passando agora à acompanhar o cantigo deste primeiro mantra com muita leveza, felicidade e gratidão pelo processo pelo qual Shiva havia me conduzido. Pensei que à partir de então não tinha mais nada à curar, estava renovado !!  Mas como o ego é um fenômeno realmente muito complexo do ser, mais tarde percebi que mesmo este pensamento se tratava de uma das ilusões de grandeza e orgulho próprio que o ego nos induz. Pensei que iria agora passar ileso pela segunda e então terceira sessão de mantras e que mesmo que houvessem ainda falhas à reconhecer em mim mesmo, desta vez, já sendo possuidor da chave da redenção que Shiva acabara de me ensinar bastaria aplica-la novamente exatamente como acabara de fazê-lo que poderia minimizar o sofrimento tão logo ele aparecesse, caso aparecesse. Doce ilusão, o simples fato de ter tido este tipo de pensamento controlador reforça o quanto o ego e a auto ilusão ainda estão presentes, embora agora um pouquinho enfraquecidos. Fomos então para as sessões seguintes e o processo todo se repetiu de forma semelhante porém um pouco mais fraca a cada sessão e isto me fez perceber que não basta entender racionalmente o processo e aplica-lo através de atos pensados, ele tem de ser vivido de corpo e alma e não de forma mental e esta é a beleza da redenção que ele nos traz, o carma deve ser, de fato, consumado através do coração, esta é a transmutação da água em vinho que devemos processar em nosso ser. Você deve agora estar se perguntando como poderia eu estar colocando esta experiência como algo que realmente tenha valido a pena ter vivido uma vez que me levou próximo ao desespero. Acredito que justamente o fato de haver me levado à extremos que eu não conhecia é que me fez também aprender sobre minha própria força para encarar a responsabilidade pelos meus atos e os desafios diversos que a vida nos coloca.

Passei também à confiar mais nas forças que regem a nossa existência como por exemplo a energia transformadora de Shiva que acabou se processando em mim e causando o que é proposto por ele, ou seja, a destruição do ego (ou de parte dele) para dar lugar à regeneração do mesmo agora sob uma nova visão de mundo e de mim mesmo.


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